Eu pouco falei do que me trouxe aqui. Minhas idas aos arquivos foram majestosas. Eu sou suspeita pra dizer porque me realizo encontrando coisas que se conectam com outras e vão recriando um mundo na minha cabeça, mas foi um barato, rsrs. Eu encontrei muita coisa no Arquivo Nacional, mas foi o que eu não encontrei que mais me revelou elementos de análise. Mais uma vez em dimensões diferentes do meu trabalho.
Eu fui ao Arquivo Nacional com um levantamente preliminar feito por uma amiga. E com informações publicadas em artigos de pesquisadores/professores respeitados. Eu queria mesmo encontrar as listas de proprietários brasileiros residentes no Uruguai. Graças a essas amizades em rede, eu tenho uma lista dessas impressa, e graças ao meu trabalho de "lunática que revira séries de documentos no verão" eu tinha conseguido recolher listas bem menores espalhadas em fundos diferentes no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Mas sabendo que existiam listas completas e originais, eu precisava bater com as que eu tinha e ver se não acrescentavam nada. E lá fui eu com a referência do artigo dar com os burros n'água.
Eu passei quase dois meses entre Arquivo Nacional e Itamaraty. No primeiro, a maior parte do tempo, por que minha informação era de que as listas estavam lá, num determinado fundo. Pois bem, revirei a coleção e nada. Não que fosse motivo de desespero, mas realmente, comecei a achar que tinha algo errado. Será que tinham reestruturado os fundos e coleções? Será que alguém havia roubado as listas? Será que elas tinham sido devoradas pelas traças para nunca mais? A verdade é que só no primeiro caso eu poderia descobrir algo, procurando em outros fundos. E lá fui eu, vasculhar muitas fontes. Aliás, termino a devassa, amanhã, cansada, com muito material pra ler em casa, mas feliz.
Bueno, mas o que de fato aconteceu foi o seguinte. Eu seguia indo no Itamaraty, onde tenho mais um montão de documentos, inclusive as reclamações desses proprietários ao longo do período que eu estudo, que me interessam muito. Lá eu dependo de que tenha vaga na agenda deles, já que o espaço e os atendentes são poucos para tanta gente e documento, motivo pelo qual, sempre que conseguia agenda, eu deixava de ir ao Arquivo Nacional e corria para lá. E com essa coisa de voltar antes eu foquei na documentação que mais me interessa, deixando o que era secundário de lado, por enquanto. E estou eu lá na última quinta, lépida e faceira, quando abro um livro de correspondências entre o Ministério das Relações Exteriores e o presidente da Província de São Pedro e lá estão as minhas listas!!! Fiquei tão feliz e contente que escrevi mensagem pro Leo, fotografei tudo rapidinho e parei pra dar uma espiada. Claro, nem tudo são flores, uma das listas estava assim:
Mas o resto estava lá, como que me esperando. E eu prontinha para lê-las. Mas depois que cheguei em casa vieram à cabeça uma série de questões relacionadas. A primeira era exatamente o fato de que o estado de conservação dos documentos está precário e os próprios funcionários comentaram que depois que eu visse aqueles papéis, provavelmente eles seriam interditados, porque não estão suportando o manuseio. Fiquei pensando em quantas pesquisas aquelas fontes podem render, em quanta coisa não se sabe simplesmente porque não se faz o cruzamento dos documentos de arquivos distintos. Coisa mais complicada ainda quando uma parte dos documentos fica a 1600 Km dos outros e o financiamento para a pesquisa é escasso. Ok, não só isso, esse tipo de trabalho é exaustivo, nem todo mundo se dispõe.
Mas depois fiquei com uma indignação ética. Como é que puderam publicar tantas vezes a referência errada? Na verdade, fiquei pensando em muitas hipóteses: Síndrome de "Em Nome da Rosa", quando o indivíduo resolve que só ele pode ter aquele conhecimento, o que implicaria em uma publicação errada proposital; Síndrome de Dependência do Bolsista, quando o professor contrata o bolsista pra fazer o braçal (como se não fosse intelectual também) e não acompanha o trabalho a ponto de perceber um erro; descaso total e completo; pura e simples mentira, já que as listas foram citadas e nunca analisadas.
A verdade nunca vou saber, porque eu mesma nunca vou perguntar. Afinal, eu tenho as listas, posso fazer meu trabalho. E sei que vai ser uma pesquisa. Mesmo.
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