Quando comecei a escrever esse blog estava eu dando meus primeiros passos como professora. Percebi que pouco falei disso até hoje, talvez porque nunca encarei como algo concreto e duradouro como agora, em que tenho esse lindo emprego de onde só sairei em circunstâncias muito especiais. E se elas acontecerem, espero que sejam positivas, porque né, nunca se sabe, rsrs.
Mas na verdade o que me motivou a este post foi uma cena da segunda passada. Às vezes eu me sinto como se nunca tivesse dado aula. Os alunos seguem me surpreendendo. Eles insistem em achar que minha inteligência está adormecida, ou merece ser ofendida. Veja bem, não são todos, mas a persistência dos acontecimentos me marca. É por isso que resolvi abrir uma série de reflexões sobre a natureza humana dos adolescentes na sua relações com os professores.
Para inaugurar a série, vou falar do tipo de aluno que não tem imaginação, ou seja, aquele que repete a mesma desculpa como se fosse um argumento pra todos os professores. Como vocês podem imaginar, recuperando a greve que durou até o mês passado, estamos tendo aula em todos os dias possíveis. Segunda-feira passada, véspera do feriado da Proclamação da República, estava esta que vos escreve pronta a dar aula às 8hs da madrugada. A manhã transcorreu dentro do esperado e me dirijo depois do almoço para uma turma de primeiro ano. A agitação era geral, já que haveria prova de sociologia nos períodos seguintes e eles só acreditaram que era verdade ao ligarem para a respectiva professora às 9hs da manhã daquele mesmo dia.
Eu lidei com a situação tentando transformá-la na melhor possibilidade de produção. Ao fim, deixei a turma estudar nos últimos 25 minutos da aula que dura hora e meia. Quando eu estou atendendo alunos com dúvidas no trabalho final, faltando 15 minutos para o sinal, aparecem duas meninas que eu tinha certeza que não estavam na aula enquanto eu explicava a matéria. Ambas queriam presença. As informei que a aula começa às 14hs e que quem chegar no segundo período não tem presença. A lógica é que se eles estão no campus desde as 8hs da manhã, não tem porque chegar atrasados, mas não falei isso para as gurias, afinal, já falei isso em outras ocasiões, não tinha por que repetir. Elas começaram a bater pé, literalmente. A mais irritadinha me olhou, batendo o pézinho calçado em All Star customizado e largou a frase que não sai da minha cabeça desde então: "Mas eu estava em Canguçu, eu moro lá!"
Bueno, Canguçu é um cidade da região de Pelotas, que dista 47 Km, o que equivale dizer nem uma hora de viagem. Mas não é isso que importa, porque afinal, ela só chegou aquela hora porque alguém ligou e avisou que ia ter mesmo prova de sociologia e ela pensou em lucrar com uma presença na aula de História. Acontece, que ao contrário da colega que viu que não tinha argumento para conseguir uma presença numa aula que não assistiu, a mocinha resolveu apelar a um argumento que pelo jeito funcionou em outra situação. As colegas me contaram (porque sempre tem os "dedo-duro") que ela sempre usa essa desculpa pra chegar atrasada de manhã. Cá entre nós, cola. Coitadinha, o sistema de transporte público nesse país é tão ineficiente! Acontece que reproduzir o argumento em todo e qualquer contexto não cola. Mesmo.
Esse é o problema do déficit da capacidade interpretativa dessas criaturas e claro, da preguiça mental. Uma boa desculpa, bem pensada, poderia colar ali, caso eu fosse uma professora menos atenta a presença e/ou estivesse mais estressada/desleixada. E não digo isso pra dizer que é mérito. Nós temos que cuidar de tantos alunos em tantas turmas e eu os conheço a tão pouco tempo, que convenhamos, se não fosse tão evidente a ausência delas, talvez deixasse passar, desde que a desculpa fosse um argumento verossímel. Mas nem nisso ela, e tantos outros alunos, se dão ao trabalho de pensar. Serviu uma vez, serve sempre. E isso ofende minha inteligência cansada, imagine em plenas condições de uso.
Sendo assim, tudo que a garota ouviu foi: "E eu moro em Porto Alegre e estou aqui desde as 8hs da manhã para dar aula. Pode ir reclamar com tu quiser."
Acho que já foi constrangedor o suficiente. Pelo menos, uma parte de mim ficou com vergonha alheia. Afinal, que argumento bem bobinho, hein?!

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